sábado, 22 de agosto de 2015

medo

eu tinha dois grandes medos na vida: um  ficar sozinha sem um marido e o outro perder o amor dos meus filhos.
o marido eu perdi.
só espero nunca perder o amor dos meus filhos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Um anjo na minha vida- quesitto trabalho

Primeiro Anjo da vida profissional- Ponta Grossa Paraná- 1978
Eu o conheci numa fila. Mais precisamente numa  fila na faculdade.
Por acaso eu estava desempregada.E por acaso ele era o responsável pela contratação num grande banco.
Ali mesmo na fila eu lhe pedi um emprego. E ele me indicou pro cargo.
Começar a trabalhar naquele banco foi  o começo de grandes mudanças na minha vida. Mudança pra melhor. E bota melhor nisso.
Ele não foi apenas um chefe, foi um grande amigo.  Ele não me deu apenas um emprego, ele me deu a primeira grande oportunidade profissional.
Fernando Arias, obrigada por ter sido um anjo na minha vida.


Segundo Anjo da vida profissional :  São Paulo 2007
Um dia, alguém que achava ser Deus, quis mudar o meu destino profissional.
E aconteceu, que eu estava numa situação que demandava apenas um milagre. Não havia luz no fim do túnel.
E  mais uma vez eu encontrei um anjo. O destino me levou até a Maria Inez Fornazaro. E esse anjo, não apenas me acolheu, ela mostrou a luz..
Encontrei não apenas uma das melhores   profissionais com quem trabalhei, encontrei um ser humano  de espírito elevado.
Maria Inez Fornazaro obrigada por  ter sido um  anjo na minha vida.


Anjo quesito vizinho
Eram os anos 60. Ourinhos SP
Quem tinha televisão em casa?? Eu não.
Apenas quem tinha televisão no bairro onde eu morava era a familia do Sr. Orlando e da Dona Emilia. Comadre Emilia como dizia minha mãe. O Tadeuzinho, filho mais novo do casal era afilhado da minha mãe.
Todos os dias a casa do Orlando e da Emilia era invadida por umas quarenta pessoas. Os mais velhos, sentavam no sofá.Outros nas cadeiras, e as crianças no chão Alguns que não cabiam na sala tinham que ficar de fora assistindo pela janela aberta. Ninguém ficava sem assistir. Assistiamos a Muralha, algumas vezes o programa do Procópio Ferreira . Seu Orlando trabalhava na Sanbra e tinha que acordar cedo.
A genrosidade com que aquele casal dividia a televisão ....
Dona Emilia sempre sorridente, sempre amável, Seu Orlando discreto e educado recebia aquele contigente  sem reclamar. Imagina o que é você ter visita todos os dias??
E o casal ainda promovia  os melhores bailinhos pros jovens da vizinhança. 
O destino levou a familia do Orlando e da Emilia pra outros lados, como também levou a minha.
Nunca mais nos vimos. Recentemente encontrei a Terezinha Vicente, filha deles. Recordei com ela aquele velhos tempos, belos dias.
Obrigada Terezinha Vicente, por ter pais tão generosos.
Seus pais foram anjos, não apenas na minha vida, mas na vida de muita gente.

Anjo quesito irmã

Eram os anos 70
Terminei o segundo grau  e nada tinha mais a fazer na pequena Jaguariaiva.
Fui morar em Curitiba com a minha irmã Neuci.
A casa era pequena pra ela, o marido e dois filhos. Mas ela me acolheu com uma generosidade que eu tenho duvida se a teria.
Não me deu apenas um lugar pra dormir, ela me acolheu com bondade.Com o jeito Neuci de ser.
Nunca vou poder pagar o tanto que ela fez por mim.Tivesse ela se recusado a me receber, minha história seria muito diferente. Minha jornada mais dificil.
Nunca vou poder pagar o que ela fez , posso apenas agradecer. Obrigada Neuci
por ter sido um anjo na minha vida. 

Anjo da vida-
Quesito_ um anjo caiu do céu.
Há muito tempo atrás, eu conheci uma linda menina chamada Georgina.
No primeiro dia em que a vi, na agência onde fazíamos o mesmo estágio, fiquei impressionada com a beleza da menina.
Mas a menina não era apenas linda.
A menina linda era também generosa.
Mas a menina não era apenas  generosa, a menina era muito generosa.
E a menina linda e generosa era generosa porque era assim que ela era. Ela apenas sabia ser generosa.
Num mundo de meninas más, de cabelos ruins, aquela menina generosa de cabelos lindos, vivia sorrindo.
A menina linda e generosa, de cabelo bom que vivia sorrindo, não apenas fazia bem ao coração das pessoas, ela também sabia repartir outros bens que possuía.E a menina era assim porque os pais eram assim.
Caminhos da vida nos separaram, muitos e muitos anos se passaram, sem que eu a visse mais.
A menina linda e generosa, de cabelo bom que vivia sorrindo, que fazia bem ao coração das pessoas, que eu conheci há  muito, muito tempo atrás, reencontrei-a  virtualmente recentemente.  
Continua linda a menina, na foto o mesmo brilho no olhar, o mesmo sorriso lindo....
E ai eu tive a oportunidade de contar para a menina, a diferença que ela fez na minha vida.
Obrigada Georgina Maria Jorge, por ter sido um anjo na minha vida.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Aposentdoria

Daqui a uns poucos meses, menos de um ano vou me aposentar.
Vou aposentar com 30 anos de efetivo exercício. Faz 25 anos que trabalho para a municipalidade de SP,  mais 8 anos no setor privado,
Ai quando comento com algumas pessoas ou mesmo familiares ouço a pergunta: mas será que você vai acostumar a ficar em casa?
Ai bate aquela dúvida. Será que "ficar em casa" é mesmo decretar um  estado menos favorável pra existência? Ou seria poder aproveitar e curtir algumas coisas que não foram possíveis nessa jornada?
Tenho vontade de aprender a costurar, frequentar um curso de corte e costura sem a expectativa de sair de lá uma expert costureira. Apenas testar e satisfazer um sonho antigo. Bordar um pano de algodão com ponto atrás e ponto cruz, ficar a tarde inteira entretida na linha e agulha sem aquela sensação que o tempo poderia estar sendo melhor aproveitado, afinal a louça, a roupa no varal  e outros afazeres esperam nas poucas horas de folga que tem quem trabalha fora.
Penso em visitar o lugar onde passei a infância, rever amigos, visitar parentes. Penso em organizar fotos à muito esquecidas, 
Tenho vontade de testar as milhares de receitas que guardo à tanto tempo, fazer um bate e volta até a praia, ficar a noite inteira assistindo minha série favorita.
Penso em ficar uma semana de pijama na cama, na melhor companhia de uma dezena de livros.
Penso em ficar disponível para meus filhos, fazer um trabalho voluntário que faça diferença na vida das pessoas.
Começar a praticar esportes, escrever mais.
Poderia ter feito tudo isso mesmo trabalhando. Algumas coisas fiz, mas fiz com pressa, algumas vezes até com culpa por estar "roubando" tempo dos meus filhos.
Mas na verdade, o que sinto é que estou cansada. Cansada do trânsito, da rotina. Cansada do trabalho.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sem Enfeite Nenhum Adélia Prado

Um dos cem Melhores Contos Brasileiros do Século"

4 de março de 2012 às 14:46
Sem Enfeite Nenhum
Adélia Prado
A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?
Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.
Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai  chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom', danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.
Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia... A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não, tou só pedindo a Deus pra ter dó de nós.
Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha horror, pra ela e pros outros.
Quando a Ricardina começou a morrer, no Beco atrás da nossa casa,   ela me chamou com a voz alterada: vai lá, a Ricardina tá morrendo, coitada,  que Deus perdoe ela, corre lá, quem sabe ainda dá tempo de chamar o padre, falava de arranco, querendo chorar, apavorada: que Deus perdoe ela, ficou falando sem coragem de aluir do lugar.
Mas a Ricardina era de impressionar mesmo, imagina que falou pra mãe, uma vez, que não podia ver nem cueca de homem que ela ficava doida.  Foi mais por isso que ela ficou daquele jeito, rezando pra salvação da alma da Ricardina.
Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava, era pasta de primeira, caixa com doze lápis e uniforme mandado plissar. Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair.
Rodeava a gente estudar e um dia falou abrupto, por causa do esforço de vencer a vergonha: me dá seus lápis de cor. Foi falando e colorindo laranjado, uma rosa geométrica: cê põe muita força no lápis, se eu tivesse seu tempo, ninguém na escola me passava, inteligência não é estudar, por exemplo falar você em vez de cê, é   tão mais bonito, é só  acostumar. Quando o coração da gente dispara e a gente fala cortado, era desse jeito que tava a voz da mãe.
Achava estudo a coisa mais fina e inteligente era mesmo, demais até, pensava com a maior rapidez. Gostava de ler de noite, em voz alta, com tia Santa, os livros da Pia Biblioteca, e de um não esqueci, pois ela insistia com gosto no titulo dele, em latim: Máguina pecatrís. Falava era antusiasmo e nunca tive coragem de corrigir, porque toda vez que tava muito alegre, feito naquela hora, desenhando, feito no dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou: coitado, até essa hora no serviço pesado.
Não estava gostando nem um pouquinho do desenho, mas nem que eu falava. Com tanta satisfação ela passava o lápis, que eu fiquei foi aflita, como sempre que uma coisa boa acontecia.
Bom também era ver ela passando creme Marsílea no rosto e Antissardina n° 3, se sacudindo de rir depois, com a cara toda empolada. Sua mãe é bonita, me falaram na escola. E era mesmo, o olho meio verde.
Tinha um vestido de seda branco e preto e um mantô cinzentado que ela gostava demais.
Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um par de sapato pra ela. Foi três vezes na loja e ela botando defeito, achando o modelo jeca, a cor regalada, achando aquilo uma desgraça e que o pai tinha era umas bobagens. Foi até ele enfezar e arrebentar com o trem, de tanta raiva e mágoa.
Mas sapato é sapato, pior foi com o crucifixo. O pai, voltando de cumprir promessa em Congonhas do Campo, trouxe de presente pra ela um crucifixo torneadinho, o cordão de pendurar, com bambolim nas pontas, a maior gracinha. Ela desembrulhou e falou assim: bonito, mas eu preferia mais se fosse uma cruz simples, sem enfeite nenhum.
Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente.
Fiquei hipnotizada, olhando a mãe. Já no caixão, tinha a cara severa de quem sente dor forte, igualzinho no dia que o João Antônio nasceu. Entrei no quarto querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora, parece que tá com raiva, mãe.
O Senhor te abençoe e te guarde,
Volva a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti,
O Senhor te dê a Paz.
Esta é a bênção de São Francisco, que foi abrandando o rosto dela, descansando, descansando, até como ficou, quase entusiasmado.
Era raiva não. Era marca de dor.
Texto publicado em "Prosa Reunida", Editora Siciliano - São Paulo, 1999, foi incluído por Ítalo Moriconi no livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 349.

Chve chuva

foi só eu:
1- fazer um esforço danado pra lavar o quintal com a água da máquina de lavar
2- deixar as janelas abertas
3- deixar 3 varais de roupa secando
4- fazer escova no cabelo
que a chuva chegou

Ajudante de motorista

Entro no ônibus. Ponto Final. Praça do Correio. Centro da Cidade de São Paulo.
O cobrador não estava e fiquei na parte da frente. Entram o motorista e o cobrador e me perguntam: você sabe o itinerário desse ônibus? Eu e o cobrador somos novatos, é minha primeira viagem de volta. Pode por favor sentar aqui ao meu lado e ir me indicando o itinerário?
Então eu assumo a função de ajudante : vira a es...querda, vira a direita, passa o viaduto, pega a direita, olha o corredor, olha o ponto, até o instante em que a chuva impedia enxergar qualquer objeto. Pergunto pelo desembaçador e o motorista não sabe onde é. E fala ao telefone com a suposta namorada. E o ônibus vai se arrastando pela avenida, numa marcha nervosa. Até que a mulher ao lado oferece um pano e eu limpo o para-brisas. E quando tem que virar a esquerda ele passa direto e vamos por caminhos desconhecidos. Mas de alguma forma a Avenida Imirim surge a nossa frente e o motorista suspira aliviado: e diz aqui eu conheço.
Faço menção de passar a catraca e o cobrador diz: Paga não Dona, aqui a senhora é VIP. Nos salvou.
E eu desço aliviada, pensando como foi que consegui trazer o ônibus até aqui, eu que nunca consigo distinguir a esquerda da direita?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Lá em casa, lá na casa onde eu era criança, as compras de comida eram feitas na cooperativa do ferroviários. Havia uma caderneta já com a relação dos produtos e uma vez por mês um filho era escalado pra ditar pra minha mãe e ela ia especificando as quantidades.
A caderneta era entregue lá na cooperativa e uns dias depois vinha um carroceiro entregar a "compra". Todo mês era o mesmo ritual.
Mas uma vez por ano, meu pai avisava: a cooperativa "abriu limite". Abrir limite era o máximo. Significava que iríamos comprar tecidos.
Num dia bem cedinho, saiamos minha mãe e minha irmãs. Na cooperativa havia uma longa fila, acho que esse limite era aberto pra todos os ferroviários e esperamos na fila por umas 4 horas. Lá pelo meio dia chegava a nossa vez. Era atendido uma família por vez. O vendedor ia então abrindo as peças de tecido no balcão. Musselinas, chifom, chamelote, Piquet, voal, ana ruga, cretone para lençóis. Uma profusão de cores e texturas. Minha mãe não me deixava escolher, ela decidia o tecido e a prioridade. Filhas mais velhas eram privilegiadas. Eu, a mais nova tinha que aceitar a escolha. Mas não achava ruim, a mãe sabia o que era melhor. Já em casa, ela escolhia os modelos que estavam moda e aqueles cortes viraram lindos vestidos.
Acho que só antigamente os tecidos encolhiam. Então minha mãe lavava todos os tecidos antes de costurar. Eu não entendia porque ela fazia isso. Ela tirava do tecido o que eu mais gostava: o cheiro da goma, o cheiro do tecido novo. Eu guardava retalhos que não tinham sido lavados só pra ficar sentindo o cheiro da goma.
Hoje fui numa loja de tecidos. Uma loja grande. Uma profusão de tipos, cores e texturas. Fiquei por ali na loja passeando entre os corredores, sentindo o cheiro, a maciez dos tecidos, as cores. A vendedora solicita quis saber por 2 vezes se já tinha sido atendida. Com explicar pra ela o que eu queria?? Eu queria minha mãe ali pra comprar tecidos e fazer vestidos pra mim. Eu queria a minha infância.

Pra minha terceira irmã mais velha

Pra minha terceira irmã mais velha
Eramos 4 irmãs. Eu, a mais nova delas. 
Quando nasci, a quarta mulher, claro que meu pai deve ter ficado muito decepcionado. Ele queria muito um filho homem. Acabou tendo. Não um, mais dois. Então éramos 6. Éramos 8 contando o pai e a mãe.
Imagino como era dificil dar comida e roupa pra toda essa gente. 
Mas se os bens materiais eram escassos, a gente tinha amor de sobra. Amor entre irmãos.
Eu tive a melhor terceira irmã que alguém poderia ter tido. Apesar dela ter se casado bem mocinha ainda, a infância que passamos juntas foi cheia de ternas lembranças.
Foi ela quem me contou "como nascem os bebês". Lembro do choque que levei quando ela me contou o que faziam os casais. Eu tinha 11 anos e era uma menina boba. Em momentos importantes ela me ajudou. Ela me acolheu em sua casa quando eu quis morar na "capital".
Talvez eu nunca tenha dito ou demonstrado o quanto eu gosto dela, mas nunca é tarde pra dizer;
Neuci Palma você é a melhor irmã mais velha que alguém pode ter.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Lá em casa, lá na casa onde eu era criança, as compras de comida eram feitas na cooperativa do ferroviários. Havia uma caderneta já com a relação dos produtos e uma vez por mês um filho era escalado pra ditar pra minha mãe e ela ia especificando as quantidades.
A caderneta era entregue lá na cooperativa e uns dias depois vinha um carroceiro entregar a "compra". Todo mês era o mesmo ritual.
Mas um...a vez por ano, meu pai avisava: a cooperativa "abriu limite". Abrir limite era o máximo. Significava que iríamos comprar tecidos.
Num dia bem cedinho, saiamos minha mãe e minha irmãs. Na cooperativa havia uma longa fila, acho que esse limite era aberto pra todos os ferroviários e esperamos na fila por umas 4 horas. Lá pelo meio dia chegava a nossa vez. Era atendido uma família por vez. O vendedor ia então abrindo as peças de tecido no balcão. Musselinas, chifom, chamelote, Piquet, voal, ana ruga, cretone para lençóis. Uma profusão de cores e texturas. Minha mãe não me deixava escolher, ela decidia o tecido e a prioridade. Filhas mais velhas eram privilegiadas. Eu, a mais nova tinha que aceitar a escolha. Mas não achava ruim, a mãe sabia o que era melhor. Já em casa, ela escolhia os modelos que estavam moda e aqueles cortes viraram lindos vestidos.
Acho que só antigamente os tecidos encolhiam. Então minha mãe lavava todos os tecidos antes de costurar. Eu não entendia porque ela fazia isso. Ela tirava do tecido o que eu mais gostava: o cheiro da goma, o cheiro do tecido novo. Eu guardava retalhos que não tinham sido lavados só pra ficar sentindo o cheiro da goma.
Hoje fui numa loja de tecidos. Uma loja grande. Uma profusão de tipos, cores e texturas. Fiquei por ali na loja passeando entre os corredores, sentindo o cheiro, a maciez dos tecidos, as cores. A vendedora solicita quis saber por 2 vezes se já tinha sido atendida. Com explicar pra ela o que eu queria?? Eu queria minha mãe ali pra comprar tecidos e fazer vestidos pra mim. Eu queria a minha infância.
Sorvete de assai -
estava tirando uns restos de entulho que ficou da obra e colocando na calçada para o "moço do carrinho" levar ao Eco Ponto .
na rua em frente a casa uns meninos empinavam pipa. uns deles o menorzinho perguntou se tinha algum serviço pra fazer.
tenho sim respondi. quer me ajudar com umas madeiras que quero empilhar na garagem? ofereci 5 reais e um maior também se ofereceu. ...
acho que eu mais que eles transportei as madeiras e no final perguntei: o que você vai fazer com o dinheiro?
- ai dona me disse o menorzinho (que nessas alturas já tinha me contado que tinha 8 anos, morava com a avó, tinha medo de cachorro e de altura,) vou comprar uma coisa que faz tempo que eu quero e nunca consegui comprar.
gelei. pensei comigo, será que ele acha que 5 reais é bastante dinheiro e ele quer comprar um brinquedo?? tipo um vídeo game?
- e o que você quer comprar?
- quero comprar sorvete de assai. sabe aquele que tem ali no sacolão ? então eu nunca provei, tenho maior vontade.
- vamos fazer o seguinte: o sacolão já fechou então amanhã nos vamos lá e vou comprar sorvete de assai pra você . por ora tenho sorvete de flocos, você quer?
- quero sim dona, acho que eu gosto de flocos, nunca provei, mas quero sim.
dei o sorvete , eles tomaram e depois o menorzinho me perguntou: a senhora é rica dona??
- não sou rica não. porque você acha que sou rica??
- ah né dona, gente que tem sorvete em casa deve ser rica né. e quem paga sorvete de assai também...

domingo, 26 de maio de 2013

Querida Marina, um ano atrás estávamos juntas. Mais feliz impossível. Cercada por amigos queridos, tínhamos por companhia o mar do Caribe, boa comida, bebida excelente, passeios incríveis e a paisagem deslumbrante.
Antevendo a data em que iríamos nos separar, curti aquela semana em Cancum como só uma mãe sabe, quando se anuncia a separação de seu filho querido. Como fomos felizes.
Nesse ano que passou, quando a saudade me aperta me lembro da sua carinha feliz no X Caret, das suas "bebedeiras" no bar 24 h, do seu deslumbramento com a imensidão daquele mar. Eu me lembro de cada minuto que passamos juntas nas nossas férias maravilhosas.
Isso tem servido de consolo. Aquela semana serviu pra gente "se curtir”, pra gente ser só mãe e filha.
Amo-te muita filha querida e não pense que a saudade tem tamanho, ela é maior que a distância que nos separa. Mas não maior do que o amor que eu sinto por você.

Cara de cão magoado

Cara de "cachorro magoado"
No jantar, faço purê de mandioquinha salsa , o preferido do Guilherme.
Sirvo o jantar, ele reluta em comer. Alega que está sem fome. Chantageio, dizendo que fui até o mercado só pra comprar as mandioquinhas, que fiz especialmente pra ele, o feijão fresquinho, o arroz saboroso...
Ele me olha, começa a comer e diz:
Tá bom, vou comer, pra você não ficar com essa cara de "cão magoado".
 
(Guilherme tem 8 anos, mora comigo, me chama de mãe)
atravesso o vale do anhangabau em direção ao metrô São Bento. 21 hs. ( todo mundo me pergunta: não tem medo? e sempre respondo: não não tenho, os" moradores de rua" devem me conhecer. enfim não tenho medo e atravesso sempre nesse horário na saída do trabalho tranquilamente).
dois homens conversam: um diz pro outro: "viu como ele me tratou? me tratou como se eu não tivesse nada, como se eu estive...sse jogado na rua. ao que o outro respondeu: mas você mora na rua. - moro na rua mas não estou jogado na rua. mas eu tenho alguma coisa sim, eu tenho essa mala que tá cheia de lembranças. você acha mesmo que eu já estou com cara de morador de rua?
- não sei pra que desfecho a conversa fluiu. tive que atravessar a rua, mas ainda me virei pra olhar aquele homem que tentava a todo custo manter sua dignidade

sábado, 16 de março de 2013


Essa tal felicidade
E porque na casa o costume era dormir cedo, mal acabava o Seriado Bonanza, que o pai e os irmãos assistiam, as luzes eram apagadas, e a ordem era deitar.
Mas se deitada o sono não vinha, o jeito era cobrir a cabeça, e começar a sonhar. O que poderia ser um tormento, pra ela acabava sendo uma coisa boa. E ouvindo um latido do cachorro ao longe, um trovão e mesmo o ronco do pai, ela começava a sonhar. Não sonhava garrar o mundo, ainda não sentia a vontade de ir embora, isso só sentiria mais tarde, quando já desiludida, quisera por fim de ver aquelas paisagens. Não sonhava casar, ter filhos, não sonhava ser como a mãe, que vivia ali pra aquele homem, sem nenhum carinho. O pai só ficara carinhoso quando ficou mais velho, e ficou tão carinhoso que nem parecia o mesmo homem. Não sonhava escrever um livro, nem se importava com os elogios do professor . Não planejava trabalhar na cidade, não sonhava com um futuro. Sonhava com o presente. Sonhava acordar um dia de possibilidades. Sabe esse sentimento de querer que aquele dia pudesse ser diferente? E ela imaginava que assim é que começaria a sua felicidade. E, é claro, haverá sempre mais. Nunca lhe ocorreu que não era o começo. Já era a felicidade, bem ali.
A felicidade era a capacidade que ela tinha de sonhar.

sábado, 13 de outubro de 2012


E pela manhã, ela lavou os cabelos na água quente do chuveiro.
Esfregou bem com um shampoo cheiroso ( presente da filha mais velha que tinha mania dos importados). Secou o cabelo, prendeu num coque no alto da cabeça. Lamentavelmente deu-se conta que não restava mais nenhum fio do outrora cabelo ruivo, já estavam todos brancos. Há alguns anos tinha desistido de pinta-los. Apesar de lamentar, gostava deles assim.
Escolheu entre alguns pares de brinco ali da caixinha de madeira, por um de pérolas, e mentalmente pensou na blusa branca que pretendia usar: boa escolha.
Um tico de cor nas bochechas, um arremedo de batom nos lábios. Examinou os dentes: em bom estado. Gostou do que o espelho refletia, um semblante sereno, marcado por rugas. Mas gostava delas, das rugas, tinha demorado tantos anos para conquista-las.
Quedou-se ali na frente do espelho a olhar para aquela mulher refletida no pequeno espelho. O que via? Enxergava apenas o rosto marcado pelo tempo ou enxergava a alma da mulher que fora? Teria coragem de olhar dentro da alma e enxergar todos os segredos? Balança a cabeça na tentativa de afastar os pensamentos...mas os pensamentos tem vida própria, são teimosos, e insistem.,.. e ela se deixa levar pelas lembranças.
Reage. Não. Hoje não. Só por hoje : não. Hoje é o dia de seu aniversario. Tantas providẽncias a serem tomadas, os filhos virão jantar à noitinha....

sábado, 17 de março de 2012

Depois de Bonanza

E porque na casa o costume era dormir cedo, mal acabava o Seriado Bonanza, que o pai e os irmãos assistiam, as luzes eram apagadas, e a ordem era deitar.
Mas se deitada o sono não vinha, o jeito era cobrir a cabeça, e começar a sonhar. O que poderia ser um tormento, pra ela acabava sendo uma coisa boa. E ouvindo um latido do cachorro ao longe, um trovão e mesmo o ronco do pai, ela começava a sonhar. Não sonhava garrar o mundo, ainda não sentia a vontade de ir embora, isso só sentiria mais tarde, quando já desiludida, quisera por fim de ver aquelas paisagens. Não sonhava casar, ter filhos, não sonhava ser como a mãe, que vivia ali pra aquele homem, sem nenhum carinho. O pai só ficara carinhoso quando ficou mais velho, e ficou tão carinhoso que nem parecia o mesmo homem. Não sonhava escrever um livro, nem se importava com os elogios do professor . Não planejava trabalhar na cidade, não sonhava com um futuro. Sonhava com o presente. Sonhava acordar um dia de possibilidades. Sabe esse sentimento de querer que aquele dia pudesse ser diferente? E ela imaginava que assim é que começaria a sua felicidade. E, é claro, haveria  sempre mais. Nunca lhe ocorreu que não era o começo. Já era a felicidade., bem ali.

domingo, 11 de março de 2012

Somos uma equipe, somos um time

- mãe, vc está muito ocupada agora?
- mais ou menos Gui, mas o que vc quer?
-vc pode me ajudar com o controle do video game?preciso que vc aperte de um lado pra eu passar de fase.
-posso sim Gui te ajudar, vamos lá.
sigo as instruções; aper...tar sem parar um botão, com força.
- legal mãe, legal, consegui, passei de fase. hei mãe sabe aquela história de cada um cuidar da sua vida? então, acho que eu estava enganado. NÓS SOMOS UM TIME. SOMOS UMA EQUIPE. É ASSIM QUE FUNCIONA.
que bom Gui, que bom que vc percebeu como funcionam as coisas. . vc só tem 7 anos e já entendeu , pq tem homem feito que ainda não entendeu ...

Pensa que vai ser fácil?

Durante os últimos 12 meses, eu estava muito atarefada, e pra não sobrecarregar, eu permiti que o Guilherme fizesses quase todas as suas refeições no sofá da sala enquanto assistia televisão. Eu, que tinha e tenho um relativo orgulho da maneira como conciiliei trabalho e educação dos meus três filhos, percebi que agora com o Gui estava relapsa. Muito condescendente, banho na hora que ele quer, r...efeições no sofá da sala vendo tv...enfim, pouca disciplina. Com a desculpa de um sofá recém lavado, proibi as refeições na sala de estar e agora as refeições são oferecidas no lugar certo: deve sentar-se à mesa. Mas ele não aceitou bem as novas regras. Fica na mesa obrigado, olhando para a refeição, mas não come. Hoje ficou dia inteiro sem comer nada. Ele pede comida, eu ponho na mesa, ele insiste em comer na sala, eu nego e ele vira as costas e sai andando. Inda agora pediu sorvete. Eu servi, coloquei na mesa de jantar, ele perguntou: posso comer na sala? ante minha negativa ele recusou. Olhou para mim, bem firme e disse:- Pensa que vai ser fácil????
Não vai ser nada fácl, percebi agora eu.
Menino está sem comer desde ontem às 23 h, e eu acabei de permitir que ele fosse comer o sorvete na sala.
Longa batalha pela frente....

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Hipoteticamente falando

Comprei uma TV nova, mas o Gui se apossou da bichinha e tá achando o máximo jogar seus game, assistir seus desenhos.
Hoje chegou da escola e falou:
- Mãe, hipotéticamente falando, o que aconteceria se eu nunca mais deixasse você assistir TV aqui na sala?
- E vc sabe o que hipotéticamente falando guri?
- Sei mãe, é uma hipótese, uma condição.
- Bem Gui, então eu diria que essa hipótese é inviável.
(Gui tem 7 anos, é meu neto, mora comigo e me chama de mãe e aprendeu o significado de hipotéticamente falando essa semana)