quarta-feira, 18 de maio de 2011
FADA DOS DENTES
Dez dias atrás, ele apontou o dentinho incisivo central inferior, dizendo que estava mole.
Verifiquei e o dente estava mesmo meio molinho. Tentamos tira-lo amarrando um pedaço de fio dental, o dente ainda estava duro e ficou por isso mesmo.
Havia me esquecido do fato, até que ontem à noite, deitada na cama com ele ao meu lado, olhei e o dente já estava quase caindo.
Ele pediu para eu tira-lo, pois ficou com medo de engolir durante a noite.
Foi só amarrar um pedaço de fio dental, dar uma puxadinha e pronto: o dentinho caiu.
Ele ficou um pouco apavorado, pois saiu um pouquinho de sangue, mas logo ficou calmo. Correu para mostrar para a Ligia a janelinha no sorriso.
A Ligia estava dormindo e não ficou muito empolgada com a noticia. O pai dormia, não ouviu as batidas na porta, a Marina também dormia, e restou somente a nós dois a comemoração do fato.
O dente foi colocado por ele sob o travesseiro. Na expectativa de que a Fada dos Dentes viesse e trouxesse uma moeda.
Hoje pela manhã, mal abriu os olhos e já foi procurar sob o travesseiro .
Achou uma moeda e uma carta da Fada dos Dentes.
- Lê pra mim, mãe. Li para ele.
- Lê de novo. Li de novo.
Fui leva-lo a pé para a escola hoje, ele subiu com a carta na mão e a moeda.
Posso gastar a moeda, mãe?
- Pode Gui, mas seria bom guarda-la, não acha?
Lê de novo mãe? ( no meio do caminho)
Leio Gui.
-Essa fada é muito carinhosa, né mãe?
-É Gui.
Chegamos à escola, ele entrou, com a carta na mão. Já foi mostrando para o amiguinho, a janelinha no sorriso e a carta.
Tchau mãe.....
Tchau Gui.....
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Para a minha irmã Neusa.
O dia em que minha irmã morreu eu fiquei muito triste.
Mas o que eu não sabia é que eu ficaria mais triste ainda, quando descobrisse que com ela morreu um pouco de mim.
Minha irmã foi minha companheira num dos períodos mais felizes e mais dificeis da minha vida.
Eu com 14 anos e ela com 22, de repente nos vimos sózinhas, sem a companhia das outras irmãs, uma mais nova que ela e outra mais velha que casaram e foram embora.
Ficamos parceiras, com idades que por si estabeleciam barreiras. Eramos tão diferentes e tão parecidas
Minha irmã era liberal com os homens e eu era contida e moralista.
Ela gostava de preto e eu de vermelho.
Ela gostava de costurar e eu de ler.
Eu gostava de estudar e ela de namorar.
Ela tinha o pé quente e eu o pé gelado. (Dormiamos juntas numa cama de casal e Ela me dava chutes quando eu encostava o pé gelado nela)
Eu gostava de filme de amor e ela de filme de mistério.
Eu gostava de pera e ela de macã.
Eu gostava de peito de frango e ela de coxa.
Minha irmã tinha perna fina e eu tinha perna grossa.
Minha irmã tinha cabelo preto e eu tinha cabelo ruivo.
Minha irmã fez para mim os vestidos mais lindos que eu jamais sonhara ter. Minha irmã foi a melhor irmã que alguém poderia ter.
Um dia eu fui embora e deixei a minha irmã sózinha. Fui buscar outros rumos para a minha vida. Uma vez tentei leva-la comigo, mas ela não quis.
E agora a morte nos separou definitivamente......
Fogão a lenha
Hoje o que eu queria mesmo, era ter minha mãe comigo.
Comer uma salada de tomate como só ela sabia fazer, temperada com sal, azeite e pimenta do reino em grão, moída na hora. Salada para comer com pão, com a mão.
Ou então tomar um café com leite bem quentinho, adoçado com açúcar cristal, que fica escondidinha no fundo do copo e vem junto na ultima golada. Café para comer com pão feito em casa.
Sentar na mesa da cozinha da minha mãe, ouvir meu pai chamar a minha mãe: Carmela, você trouxe cigarro para mim?
Carmela, você trouxe aparelho de barba?
Carmela, você cadê meu chinelo????
Ou então ficar sentada na beira do fogão à lenha, olhando o fogo, sentindo o cheiro da comida, sentindo os aromas da cozinha da minha mãe.
"As coisas que eram nossas se acabaram
tristeza e solidão é o que restou" (
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O DIA EM QUE MINHA MAE TRANSFORMOU BATATAS EM PERA
Dia das Mães inesquecível? Aquele que passei em Nova York, com minha filha, numa igreja gospel? Não. Estava longe dos outros filhos e, portanto não seria perfeito.
Aquele que passamos em Buenos Aires, passeando na Recoleta? Não. Também estava longe dos outros filhos..
Qual então? Onde fora?
Esse dia inesquecível não passei como mãe: passei como filha.
Minha mãe era analfabeta. Sabia fazer contas como ninguém. Multiplicava os salgadinhos que fazia pelo preço unitário e chegava ao resultado antes mesmo de nós, os filhos, que sabíamos a tabuada de cor. Ela não sabia ler, mas exigia que os filhos só tirassem notas boas na escola.
Era Dia das Mães. Eu tinha 15 anos. Morávamos numa casinha simples e brilhante no interior do Paraná. Minha mãe havia recebido uma encomenda muito grande de salgadinhos, e tinha recebido um bom dinheiro. Prometera que o almoço desse dia, além daquele frango maravilhoso que ela fazia como ninguém, teria uma sobremesa surpresa.
Estávamos acostumados aos doces de todo dia: doce de abóbora, de mamão, de cidra…. Mas eram doces caseiros, doces que já não tinham a surpresa do sabor. Ficamos imaginando o que seria a surpresa.
Um pudim de leite condensado? Morangos com chantilly? Era época de morango?
Domingo, mesa posta, família toda reunida. Esperávamos meu pai, que tinha ido à missa do domingo.
No ar, uma alegria misturada com o mistério da sobremesa.
Meu pai chegou, almoçamos. “E, mãe, cadê a sobremesa?”
Não havia nada na geladeira, nada que nossas bisbilhotices pudessem ter descoberto.
Minha mãe então foi até seu quarto e, de dentro do armário, tirou uma caixa de papelão. Dentro, bem escondidas, embrulhadas num jornal, havia três latas de doces. De doces, como ela supunha que fossem.
“Vejam só, crianças”, disse minha mãe. “Peras em calda!”
Na foto que ilustrava a lata, as batatas facilmente eram confundidas com peras. Minha mãe não sabia ler. Não poderia imaginar que existisse batata em conserva. E em latas, como as peras e os pessegos.
Ninguém teve coragem de falar. Ou, antes, ninguém queria falar.
Minha mãe começou a abrir aquelas latas feliz e orgulhosa.
Despejou o conteudo daquelas latas numa travessa e acho que, na excitação daquele ato, nem estava percebendo que eram batatas.
Ela começou a servir um por um. Todos quietos, mudos, recebendo suas porções sem saber o que falar.
O primeiro começou a comer, foi seguido pelo outro, e outro, que seguiu os demais. E, de repente, éramos quatro filhos e um pai comendo batatas como se fossem peras.
Minha mãe tinha o hábito de servir os filhos. Ficava andando pela cozinha e, geralmente, só sentava quando praticamente já tínhamos acabado de comer.
Quando terminamos de comer a sobremesa – juro, juro, que todo mundo comeu toda sua porção – minha mãe perguntou: “Estava bom?”
Todos reponderam que estava ótimo.
Sobrou na tigela uma batata. Minha mãe disse que não queria, não gostava de pera. Meu pai prontamente disse: “Vou terminar com esse pedaço, então. Está muito bom!”
Minha mãe morreu em 2006. Nunca soube que serviu batatas de sobremesa. Porque para nós, o que comemos naquele dia, foi a pera mais saborosa do mundo. Mesmo que não o tenha sido naquele dia, nas nossa lembranças, aquela cumplicidade muda, com que nós, seus filhos, nos comunicamos só com o olhar, transformou a batata azeda na fruta doc
Aquele que passamos em Buenos Aires, passeando na Recoleta? Não. Também estava longe dos outros filhos..
Qual então? Onde fora?
Esse dia inesquecível não passei como mãe: passei como filha.
Minha mãe era analfabeta. Sabia fazer contas como ninguém. Multiplicava os salgadinhos que fazia pelo preço unitário e chegava ao resultado antes mesmo de nós, os filhos, que sabíamos a tabuada de cor. Ela não sabia ler, mas exigia que os filhos só tirassem notas boas na escola.
Era Dia das Mães. Eu tinha 15 anos. Morávamos numa casinha simples e brilhante no interior do Paraná. Minha mãe havia recebido uma encomenda muito grande de salgadinhos, e tinha recebido um bom dinheiro. Prometera que o almoço desse dia, além daquele frango maravilhoso que ela fazia como ninguém, teria uma sobremesa surpresa.
Estávamos acostumados aos doces de todo dia: doce de abóbora, de mamão, de cidra…. Mas eram doces caseiros, doces que já não tinham a surpresa do sabor. Ficamos imaginando o que seria a surpresa.
Um pudim de leite condensado? Morangos com chantilly? Era época de morango?
Domingo, mesa posta, família toda reunida. Esperávamos meu pai, que tinha ido à missa do domingo.
No ar, uma alegria misturada com o mistério da sobremesa.
Meu pai chegou, almoçamos. “E, mãe, cadê a sobremesa?”
Não havia nada na geladeira, nada que nossas bisbilhotices pudessem ter descoberto.
Minha mãe então foi até seu quarto e, de dentro do armário, tirou uma caixa de papelão. Dentro, bem escondidas, embrulhadas num jornal, havia três latas de doces. De doces, como ela supunha que fossem.
“Vejam só, crianças”, disse minha mãe. “Peras em calda!”
Na foto que ilustrava a lata, as batatas facilmente eram confundidas com peras. Minha mãe não sabia ler. Não poderia imaginar que existisse batata em conserva. E em latas, como as peras e os pessegos.
Ninguém teve coragem de falar. Ou, antes, ninguém queria falar.
Minha mãe começou a abrir aquelas latas feliz e orgulhosa.
Despejou o conteudo daquelas latas numa travessa e acho que, na excitação daquele ato, nem estava percebendo que eram batatas.
Ela começou a servir um por um. Todos quietos, mudos, recebendo suas porções sem saber o que falar.
O primeiro começou a comer, foi seguido pelo outro, e outro, que seguiu os demais. E, de repente, éramos quatro filhos e um pai comendo batatas como se fossem peras.
Minha mãe tinha o hábito de servir os filhos. Ficava andando pela cozinha e, geralmente, só sentava quando praticamente já tínhamos acabado de comer.
Quando terminamos de comer a sobremesa – juro, juro, que todo mundo comeu toda sua porção – minha mãe perguntou: “Estava bom?”
Todos reponderam que estava ótimo.
Sobrou na tigela uma batata. Minha mãe disse que não queria, não gostava de pera. Meu pai prontamente disse: “Vou terminar com esse pedaço, então. Está muito bom!”
Minha mãe morreu em 2006. Nunca soube que serviu batatas de sobremesa. Porque para nós, o que comemos naquele dia, foi a pera mais saborosa do mundo. Mesmo que não o tenha sido naquele dia, nas nossa lembranças, aquela cumplicidade muda, com que nós, seus filhos, nos comunicamos só com o olhar, transformou a batata azeda na fruta doc
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Em pé, encostada na pia do banheiro lendo uma revista Monet, enquanto o Guilherme tirava a roupa para tomar banho.
Observa que estou lendo e pergunta: que tá escrito ai?
Eu falei 24 horas
Ele me falou assim:
AS LETRAS VIRAM SONS QUANDO VC CONHECE ELAS
(Guilherme tem 6 anos, é meu neto, mora comigo, me chama de mãe e ainda não é alfabetizado)
Observa que estou lendo e pergunta: que tá escrito ai?
Eu falei 24 horas
Ele me falou assim:
AS LETRAS VIRAM SONS QUANDO VC CONHECE ELAS
(Guilherme tem 6 anos, é meu neto, mora comigo, me chama de mãe e ainda não é alfabetizado)
Mãe você vai morrer?
- Agora não Gui, mas um dia eu vou., Porque?
Você não vai morrer não.
Ai encosta a mão no meu rosto e fala:
Você tem um pele ótima, seu nariz está ótimo, seu cabelo está ótimo, sua roupa está ótima, você está ótima. Não vai morrer mesmo.,
Bom se ele falou, ta falado.
Mãe conta uma estória para eu dormir?
-Tá bom, qual estória você quer?
Do carrinho amarelo. Que eu perdi e vc foi busca-lo. ( Repararam : fiquei de boca aberta: busca-lo)
(Guilherme tem 6 anos, é meu neto, mora comigo e me chama de mãe)
Gui ontem à noite:
- estamos fazendo um projeto na escola.
Um projeto? que legal. Projeto de que?
Ele senta na cama e fala;
É assim mãe: você sabe o vídeo game? Pensa que só tem fio dentro dele? Não, é TECNALOGIA . Nós estamos fazendo um projeto de TECNALOGIA. É O QUE TEM DENTRO DA TELEVISÃO, DO VIDE GAME.
Que legal Gui. Mas é TECNOLOGIA ta.
- estamos fazendo um projeto na escola.
Um projeto? que legal. Projeto de que?
Ele senta na cama e fala;
É assim mãe: você sabe o vídeo game? Pensa que só tem fio dentro dele? Não, é TECNALOGIA . Nós estamos fazendo um projeto de TECNALOGIA. É O QUE TEM DENTRO DA TELEVISÃO, DO VIDE GAME.
Que legal Gui. Mas é TECNOLOGIA ta.
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