domingo, 26 de maio de 2013

Cara de cão magoado

Cara de "cachorro magoado"
No jantar, faço purê de mandioquinha salsa , o preferido do Guilherme.
Sirvo o jantar, ele reluta em comer. Alega que está sem fome. Chantageio, dizendo que fui até o mercado só pra comprar as mandioquinhas, que fiz especialmente pra ele, o feijão fresquinho, o arroz saboroso...
Ele me olha, começa a comer e diz:
Tá bom, vou comer, pra você não ficar com essa cara de "cão magoado".
 
(Guilherme tem 8 anos, mora comigo, me chama de mãe)
atravesso o vale do anhangabau em direção ao metrô São Bento. 21 hs. ( todo mundo me pergunta: não tem medo? e sempre respondo: não não tenho, os" moradores de rua" devem me conhecer. enfim não tenho medo e atravesso sempre nesse horário na saída do trabalho tranquilamente).
dois homens conversam: um diz pro outro: "viu como ele me tratou? me tratou como se eu não tivesse nada, como se eu estive...sse jogado na rua. ao que o outro respondeu: mas você mora na rua. - moro na rua mas não estou jogado na rua. mas eu tenho alguma coisa sim, eu tenho essa mala que tá cheia de lembranças. você acha mesmo que eu já estou com cara de morador de rua?
- não sei pra que desfecho a conversa fluiu. tive que atravessar a rua, mas ainda me virei pra olhar aquele homem que tentava a todo custo manter sua dignidade

sábado, 16 de março de 2013


Essa tal felicidade
E porque na casa o costume era dormir cedo, mal acabava o Seriado Bonanza, que o pai e os irmãos assistiam, as luzes eram apagadas, e a ordem era deitar.
Mas se deitada o sono não vinha, o jeito era cobrir a cabeça, e começar a sonhar. O que poderia ser um tormento, pra ela acabava sendo uma coisa boa. E ouvindo um latido do cachorro ao longe, um trovão e mesmo o ronco do pai, ela começava a sonhar. Não sonhava garrar o mundo, ainda não sentia a vontade de ir embora, isso só sentiria mais tarde, quando já desiludida, quisera por fim de ver aquelas paisagens. Não sonhava casar, ter filhos, não sonhava ser como a mãe, que vivia ali pra aquele homem, sem nenhum carinho. O pai só ficara carinhoso quando ficou mais velho, e ficou tão carinhoso que nem parecia o mesmo homem. Não sonhava escrever um livro, nem se importava com os elogios do professor . Não planejava trabalhar na cidade, não sonhava com um futuro. Sonhava com o presente. Sonhava acordar um dia de possibilidades. Sabe esse sentimento de querer que aquele dia pudesse ser diferente? E ela imaginava que assim é que começaria a sua felicidade. E, é claro, haverá sempre mais. Nunca lhe ocorreu que não era o começo. Já era a felicidade, bem ali.
A felicidade era a capacidade que ela tinha de sonhar.

sábado, 13 de outubro de 2012


E pela manhã, ela lavou os cabelos na água quente do chuveiro.
Esfregou bem com um shampoo cheiroso ( presente da filha mais velha que tinha mania dos importados). Secou o cabelo, prendeu num coque no alto da cabeça. Lamentavelmente deu-se conta que não restava mais nenhum fio do outrora cabelo ruivo, já estavam todos brancos. Há alguns anos tinha desistido de pinta-los. Apesar de lamentar, gostava deles assim.
Escolheu entre alguns pares de brinco ali da caixinha de madeira, por um de pérolas, e mentalmente pensou na blusa branca que pretendia usar: boa escolha.
Um tico de cor nas bochechas, um arremedo de batom nos lábios. Examinou os dentes: em bom estado. Gostou do que o espelho refletia, um semblante sereno, marcado por rugas. Mas gostava delas, das rugas, tinha demorado tantos anos para conquista-las.
Quedou-se ali na frente do espelho a olhar para aquela mulher refletida no pequeno espelho. O que via? Enxergava apenas o rosto marcado pelo tempo ou enxergava a alma da mulher que fora? Teria coragem de olhar dentro da alma e enxergar todos os segredos? Balança a cabeça na tentativa de afastar os pensamentos...mas os pensamentos tem vida própria, são teimosos, e insistem.,.. e ela se deixa levar pelas lembranças.
Reage. Não. Hoje não. Só por hoje : não. Hoje é o dia de seu aniversario. Tantas providẽncias a serem tomadas, os filhos virão jantar à noitinha....

sábado, 17 de março de 2012

Depois de Bonanza

E porque na casa o costume era dormir cedo, mal acabava o Seriado Bonanza, que o pai e os irmãos assistiam, as luzes eram apagadas, e a ordem era deitar.
Mas se deitada o sono não vinha, o jeito era cobrir a cabeça, e começar a sonhar. O que poderia ser um tormento, pra ela acabava sendo uma coisa boa. E ouvindo um latido do cachorro ao longe, um trovão e mesmo o ronco do pai, ela começava a sonhar. Não sonhava garrar o mundo, ainda não sentia a vontade de ir embora, isso só sentiria mais tarde, quando já desiludida, quisera por fim de ver aquelas paisagens. Não sonhava casar, ter filhos, não sonhava ser como a mãe, que vivia ali pra aquele homem, sem nenhum carinho. O pai só ficara carinhoso quando ficou mais velho, e ficou tão carinhoso que nem parecia o mesmo homem. Não sonhava escrever um livro, nem se importava com os elogios do professor . Não planejava trabalhar na cidade, não sonhava com um futuro. Sonhava com o presente. Sonhava acordar um dia de possibilidades. Sabe esse sentimento de querer que aquele dia pudesse ser diferente? E ela imaginava que assim é que começaria a sua felicidade. E, é claro, haveria  sempre mais. Nunca lhe ocorreu que não era o começo. Já era a felicidade., bem ali.

domingo, 11 de março de 2012

Somos uma equipe, somos um time

- mãe, vc está muito ocupada agora?
- mais ou menos Gui, mas o que vc quer?
-vc pode me ajudar com o controle do video game?preciso que vc aperte de um lado pra eu passar de fase.
-posso sim Gui te ajudar, vamos lá.
sigo as instruções; aper...tar sem parar um botão, com força.
- legal mãe, legal, consegui, passei de fase. hei mãe sabe aquela história de cada um cuidar da sua vida? então, acho que eu estava enganado. NÓS SOMOS UM TIME. SOMOS UMA EQUIPE. É ASSIM QUE FUNCIONA.
que bom Gui, que bom que vc percebeu como funcionam as coisas. . vc só tem 7 anos e já entendeu , pq tem homem feito que ainda não entendeu ...

Pensa que vai ser fácil?

Durante os últimos 12 meses, eu estava muito atarefada, e pra não sobrecarregar, eu permiti que o Guilherme fizesses quase todas as suas refeições no sofá da sala enquanto assistia televisão. Eu, que tinha e tenho um relativo orgulho da maneira como conciiliei trabalho e educação dos meus três filhos, percebi que agora com o Gui estava relapsa. Muito condescendente, banho na hora que ele quer, r...efeições no sofá da sala vendo tv...enfim, pouca disciplina. Com a desculpa de um sofá recém lavado, proibi as refeições na sala de estar e agora as refeições são oferecidas no lugar certo: deve sentar-se à mesa. Mas ele não aceitou bem as novas regras. Fica na mesa obrigado, olhando para a refeição, mas não come. Hoje ficou dia inteiro sem comer nada. Ele pede comida, eu ponho na mesa, ele insiste em comer na sala, eu nego e ele vira as costas e sai andando. Inda agora pediu sorvete. Eu servi, coloquei na mesa de jantar, ele perguntou: posso comer na sala? ante minha negativa ele recusou. Olhou para mim, bem firme e disse:- Pensa que vai ser fácil????
Não vai ser nada fácl, percebi agora eu.
Menino está sem comer desde ontem às 23 h, e eu acabei de permitir que ele fosse comer o sorvete na sala.
Longa batalha pela frente....